"Deixa o povo sem leito": Gaeco revela chantagem usando saúde educação em MS
Mensagens mostram investigados discutindo exames, vagas e procedimentos enquanto negociavam contratos
| ÂNGELA KEMPFER / CAMPO GRANDE NEWS
'Vou trancar', 'saúde zero', 'só opera se fechar' e 'deixa o povo sem leito lá'. As frases aparecem em conversas reunidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) durante a investigação sobre o esquema milionário envolvendo a venda de livros a prefeituras de Mato Grosso do Sul, que deram origem à Operação Gutenberg. Segundo o órgão, os diálogos mostram que o acesso à estrutura pública de saúde era usado como instrumento de pressão para conseguir contratos municipais.
No centro dessa parte da investigação estão o ex-servidor estadual Ed Carlo Britto Burgatt e o advogado Gabriel Taquino de Paula, os dois presos atualmente. O primeiro era até então o coordenador estadual de Regulação Assistencial da SES (Secretaria de Estado de Saúde), enquanto Gabriel aparece no procedimento como vendedor da Editora Avante, que vendia as obras às prefeituras. Para o GAECO, as mensagens indicam negociações fraudulentas.
Um dos episódios considerados mais graves ocorreu em agosto de 2022 e envolveu Nova Alvorada do Sul. Conforme o relatório, Ed Carlo e Gabriel discutiam as dificuldades para fechar um contrato da Editora Avante com o município. O GAECO afirma expressamente que Ed Carlo teria usado seu cargo na saúde estadual para condicionar o encaminhamento de cirurgias e exames à contratação da empresa.
'Vou trancar', escreveu Ed Carlo, segundo a transcrição. Em seguida, afirmou que ligaria para o prefeito e reclamou de ter ajudado o município 'pra nada'. Depois, acrescentou: 'Eu tranco tudo aqui', 'e não ajudo eles em nada' e 'saúde zero'. Para os investigadores, a sequência mostra uma ameaça de restringir benefícios na área caso a negociação comercial não avançasse.
Horas mais tarde, a conversa voltou ao suposto acerto com a prefeitura. Gabriel informou que Ed Carlo receberia R$ 80 mil. Na sequência, o servidor respondeu: 'Vou dar 300 mil de exames pra eles, fora as cirurgias'. Na sequência, completou: 'A escolha é deles'.
As mensagens também revelam preocupação com o sigilo. Gabriel afirmou que o negócio deveria ser mantido em segredo, enquanto Ed Carlo respondeu que ninguém poderia saber e justificou: 'Tenho um cargo em jogo'. A conversa terminou com um pedido direto: 'Então boca de siri'.
Dez dias depois, a investigação encontrou outro episódio envolvendo a mesma cidade. Ed Carlo informou que marcaria dez exames de ressonância para uma pessoa chamada Edmar. Mais tarde, foram compartilhados arquivos referentes a diferentes pacientes e o servidor escreveu: 'Conforme prometido 10 ressonâncias por mês'. O GAECO relaciona essas mensagens às negociações em andamento com Nova Alvorada do Sul.
'Só opera se fechar'
O tom ficou ainda mais explícito em setembro de 2022. Gabriel enviou uma proposta comercial de Nova Alvorada do Sul e, ao discutir o avanço do negócio, escreveu: 'só opera se fechar'. Segundos depois, acrescentou: 'senão vai morrer todo mundo'.
O próprio relatório do Gaeco interpreta a conversa como uma referência às cirurgias que Ed Carlo poderia encaminhar ao município em razão de seu cargo e que estariam sendo associadas à contratação da editora.
Dias depois, com a informação de que a prefeitura não conseguiria contratar por falta de orçamento, Gabriel sugeriu uma retaliação. 'Deixa o povo sem leito lá', escreveu em 5 de setembro. No dia seguinte, insistiu: 'Suspende as cirurgias de Nova Alvorada'. A justificativa veio logo depois: 'O cara não cumpriu'.
A investigação também encontrou conversas semelhantes envolvendo Ivinhema. Em novembro de 2022, Gabriel enviou a Ed Carlo informações sobre demandas de saúde e pediu ajuda. Disse ainda que, caso sua venda no município saísse, daria ao servidor 'um presente bom'.
Ed Carlo respondeu: 'Eu resolvo tudo', mas condicionou a ajuda: 'Se ele nos ajudar lá'. Em outro momento, afirmou: 'Eu resolvo a vida dele na saúde'. Gabriel então respondeu que havia dito ao interlocutor ter 'um amigo que resolve', mas acrescentou: 'precisa agraciar ele'.
Para o Gaeco, as conversas mostram uma troca de favores em que o acesso à regulação de saúde serviria para abrir portas a negócios privados.
O relatório também registra que Ed Carlo recebeu R$ 50,5 mil da Editora Avante em duas transferências, uma de R$ 20,5 mil e outra de R$ 30 mil.
Em janeiro de 2023, outra conversa voltou a associar diretamente uma vaga no sistema de saúde a interesses comerciais. Gabriel comunicou que tinha reunião com o prefeito de Ivinhema e pediu ajuda para um paciente. Ed Carlo respondeu que, assim que o prefeito saísse da sala, 'a vaga está garantida'. Gabriel afirmou que, caso o município fechasse um contrato com o grupo, eles prometeriam 'resolver a saúde dele'.
Ao saber que o paciente era parente do prefeito e estava em situação grave, Ed Carlo respondeu que resolveria o caso e, minutos depois, afirmou ter conseguido atendimento em Nova Andradina. Na mesma conversa, reclamou que gestores nem sempre cumpriam o combinado: 'O f... é que esses caras não cumprem aí a gente queima muito cartucho à toa'.
Em apenas uma transação do esquema. Gabriel aparece como portador de um saque de R$ 48 mil da conta da Editora Avante. Para o Gaeco, esses elementos demonstram um vínculo direto dele com a operação comercial da empresa, muito além de uma eventual prestação de serviços jurídicos.
Outro lado - Ao Campo Grande News, o prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro (PP), nega qualquer negociação envolvendo vagas na Saúde. 'Comigo nunca teve esse tipo de conversa. Eu comprei livro deles quando acabou a pandemia, no valor de R$ 500 mil. Eles entregaram o material certinho e depois teve mais um contrato de 200 mil, que chegou a dar problema na nota, mas eles arrumaram e só depois disso pagamos. Nunca passou disso. Podem investigar que não vão encontrar nada', defendeu o prefeito à reportagem.
Já a gestão municipal de Nova Alvorada do Sul não atendeu às tentativas de comunicação. O espaço está aberto para esclarecimentos.
Receba as principais notícias do Estado pelo Whats. Clique aqui para acessar o canal do Campo Grande News e siga nossas redes sociais.



