Gaeco seguiu rastro de R$ 27 milhões que saiam de prefeituras em Pix e saques
Em apenas nove meses, foram 23 transações altas usando o Pix
| ÂNGELA KEMPFER / CAMPO GRANDE NEWS
Investigação do Gaeco indica que dinheiro movimentado por esquema de venda de obras paradidáticas a municípios de Mato Grosso do Sul começava a circular entre envolvidos no esquema assim que as prefeituras pagavam à Editora Avante pelos contratos de fornecimento de livros. A empresa seria fachada para antigos donos da Gráfica Alvorada, propriedade da família Jafar, mas oficialmente em nome de outra envolvida, Rhayane Souza Fanaia.
A partir daí, segundo o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado, os valores deixavam rapidamente a conta da empresa e eram distribuídos entre pessoas investigadas, empresas ligadas ao grupo e também retirados em espécie. Para o Ministério Público, esse movimento ajuda a explicar como recursos públicos teriam sido pulverizados logo após os pagamentos municipais.
Um dos exemplos mais claros ocorreu em 2 de agosto de 2022. Naquele dia, a Prefeitura de Miranda transferiu R$ 1,044 milhão para a Editora Avante. Também naquela data, Jessyca Duarte Burgatt, filha de Ed Carlo Britto Burgatt, recebeu R$ 52 mil da empresa e, depois, repassou R$ 50 mil ao pai por Pix. Separadamente, Ed Carlo também aparece como destinatário direto de R$ 50,5 mil da editora, divididos em duas transferências.
O fluxo também alcançava integrantes da família Jafar. O Gaeco aponta que a médica Olívia Paroschi Jafar recebeu R$ 135.280,34, enquanto R$ 146.698,20 foram transferidos à Gráfica CGR, empresa ligada a Felipe e Giovanni Paroschi Jafar, irmãos dela. Em outra operação, Giovanni recebeu R$ 61.752,74 depois de Rhayane, ex-mulher dele, então proprietária formal da Avante, perguntar a mãe do clã Jafar, Rossana Paroschi Jafar, como deveria proceder com o dinheiro disponível.
O Gaeco sustenta que Rhayene, apesar de ser oficialmente a responsável pela editora, não tinha autonomia financeira real sobre a empresa. Há registros de instruções para distribuição de dinheiro em pelo menos nove datas entre maio de 2022 e abril de 2023, todas vindas da família Jafar.
Em Itaporã, por exemplo, a Avante recebeu R$ 733.927 em 25 de outubro de 2022. Naquele mesmo dia, Rhayane passou a ser cobrada sobre a distribuição do dinheiro. Segundo o Gaeco, aparecem solicitações de repasses para ela própria, para o publicitário Heyder Bartz, por meio da empresa Superconteúdo, e para Giovanni Jafar.
Outro nesse organograma, o advogado Gabriel Taquino de Paula, identificado pelo Gaeco como vendedor da Editora Avante, também aparece nesse caminho. Além de discutir contratos e negociações com municípios, ele foi apontado como portador de um saque de R$ 48 mil em espécie retirado da conta da empresa.
Dinheiro vivo
A retirada de dinheiro vivo é uma das partes mais sensíveis da investigação. No primeiro período analisado, entre fevereiro e dezembro de 2022, o Gaeco identificou 23 saques que somaram R$ 1,066 milhão em 10 meses, quase todos realizados por Rhayane.
Para os investigadores, esse mecanismo teria servido para dificultar o rastreamento dos valores e, em alguns casos, viabilizar pagamentos ilícitos a agentes públicos. Trata-se, porém, da tese da investigação, ainda não de uma condenação definitiva.
O desenho apresentado pelo Ministério Público é simples: as prefeituras pagavam à Editora Avante, o dinheiro entrava na conta da empresa e, pouco depois, começava a se espalhar. Parte seguia por transferências bancárias para investigados e empresas relacionadas ao grupo. Outra parte era sacada em espécie. Em diferentes episódios, segundo o Gaeco, essa distribuição começava quase imediatamente após o recebimento dos recursos públicos.



