Pressionada por críticas em Caarapó, prefeita Lurdes atribui cobranças ao fato de ser mulher, mas áudios revelam contradições em sua fala
| CAARAPONEWS
A prefeita de Caarapó, Maria de Lourdes Portugal (PL), enfrenta uma sequência de questionamentos envolvendo diferentes áreas da administração municipal. Com reclamações de moradores, manifestações de vereadores e críticas de entidades representativas, a gestão passou a ser cobrada por decisões e problemas que atingem diretamente os serviços públicos.
Em meio a esse cenário, a prefeita publicou um vídeo na última semana no qual mencionou o fato de ser mulher ao abordar as críticas que vem recebendo. A manifestação, porém, ocorre em um ambiente no qual os principais questionamentos públicos apresentados até aqui estão relacionados a decisões administrativas, atendimento na saúde, terceirização de serviços e aplicação de recursos públicos.
Um dos pontos de maior preocupação é a situação da saúde. Moradores cobram a retomada de atendimentos ortopédicos, cirurgias de baixa e média complexidade e serviços especializados que deixaram de ser oferecidos no Hospital Beneficente São Mateus. Com a interrupção de procedimentos, pacientes que antes eram atendidos em Caarapó precisam aguardar encaminhamentos para outros municípios.
A redução dos repasses municipais à instituição também passou a ser alvo de questionamentos. Em agosto, o vereador Sandro Pacheco (PSDB) afirmou que a diminuição dos recursos, estimada em aproximadamente R$ 90 mil mensais, contribuiu para a suspensão de procedimentos ortopédicos. A Prefeitura, por sua vez, já declarou que os pagamentos previstos em contrato estão em dia, mas não esclareceu, naquela manifestação, a diferença nos valores dos repasses.
A situação ganhou novo destaque no início deste mês, após reclamações sobre demora no atendimento hospitalar durante o feriado prolongado. O vereador Celso Capovilla (PL), que esteve na unidade, apontou que o fechamento das unidades municipais de saúde durante vários dias contribuiu para concentrar a demanda no hospital. A direção da instituição também divulgou esclarecimentos sobre a sobrecarga e as transferências médicas realizadas naquele período.
Na educação, a terceirização de serviços da rede municipal por meio da contratação da Cooperativa de Trabalho dos Profissionais da Educação do Estado do Rio Grande do Norte (Coopedu), pelo valor de R$ 7,8 milhões, provocou reação de trabalhadores e entidades do setor. A medida prevê a atuação de 169 profissionais e foi contestada pelo SIMTED, pela FETEMS e pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que apontaram preocupações com os direitos trabalhistas e a qualidade do atendimento nas escolas.
Entre as críticas apresentadas pelos trabalhadores estão possíveis perdas de direitos e benefícios, como férias, 13º salário, acertos trabalhistas e vale-alimentação. A decisão também gerou questionamentos sobre a falta de diálogo com os servidores, a categoria e a comunidade escolar antes da implementação do modelo.
Outro assunto que continua gerando cobranças é a compra de materiais didáticos e cartilhas vinculada à empresa Avante, alvo da Operação Gutenberg, do Gaeco. O procedimento de contratação por inexigibilidade e a participação de uma assessoria jurídica privada na emissão do parecer levantaram questionamentos sobre os critérios adotados e a tramitação do processo, especialmente quanto à participação dos setores jurídicos e administrativos do próprio município.
Áudios ampliam desgaste
Como se os questionamentos administrativos não fossem suficientes, a circulação de gravações atribuídas à prefeita provocou novas reações nas redes sociais nesta semana.
Em um dos áudios, Lurdes faz comentários sobre uma vereadora do município estar frequentemente acompanhada do marido em eventos. A gravação gerou críticas de pessoas que interpretaram a fala como desrespeitosa à parlamentar, especialmente por se tratar de uma mulher que também ocupa cargo público.
Em outro trecho, a prefeita ironiza o veículo utilizado pelo ex-prefeito André Nezzi, referindo-se a uma Parati como um carro velho. Na gravação, ela relata um encontro com o antecessor e comenta o automóvel em tom de deboche.
André Nezzi reagiu publicamente. Disse que não tem vergonha de suas origens nem de andar em um veículo antigo e afirmou que milhares de moradores também utilizam carros usados por não terem condições de adquirir modelos mais novos. O ex-prefeito ainda declarou que suas críticas à atual administração são direcionadas à atuação de Lurdes como gestora, e não à vida pessoal ou familiar dela.
A manifestação de Nezzi também trouxe uma crítica ao que considera uma postura contraditória da prefeita: enquanto reclama de ataques pessoais, ela própria teria feito comentários depreciativos sobre uma vereadora e sobre o veículo de outro agente político.
Promessas e cobranças
Além dos episódios recentes, a administração municipal continua sendo cobrada por compromissos assumidos durante a campanha eleitoral. Entre eles estão a valorização dos servidores públicos, a implantação do atendimento 24 horas no PAM e a manutenção do funcionamento dos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) durante os 12 meses do ano.
No caso dos servidores, as críticas ganharam força justamente com a terceirização de serviços na educação e os questionamentos sobre a manutenção de direitos e benefícios. Na saúde, a promessa de ampliar o atendimento também é confrontada com as reclamações sobre a estrutura disponível, o fechamento de unidades em feriados e a transferência de pacientes para outras cidades.
Ao afirmar que está realizando um ótimo trabalho, como relatado em sua manifestação pública, a prefeita apresenta uma avaliação positiva da própria gestão. Nas ruas e nas redes sociais, entretanto, as cobranças continuam concentradas em problemas concretos: demora no atendimento, serviços interrompidos, falta de diálogo, buracos nas vias e promessas ainda cobradas pela população.
O debate, portanto, vai além de disputas políticas ou de gênero. O que moradores, servidores e representantes públicos cobram são respostas, transparência e resultados sobre decisões que afetam diretamente o cotidiano de Caarapó.



