Hospital de Amor desmente Pollon e nega ter recebido emenda milionária
A emenda de R$ 1 milhão foi para a Academia Nacional de Cultura, produtora de 'Dark Horse', filme sobre trajetória de Jair Bolsonaro
| CORREIO DO ESTADO / DANIEL PEDRA
O Hospital de Amor, em Barretos (SP), negou ter recebido a emenda de R$ 1 milhão que o deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) afirma ter solicitado o redirecionamento para a instituição de saúde paulista. Em resposta ao Correio do Estado, o hospital encaminhou os relatórios anuais de 2023 e 2024, nos quais estão detalhados os recursos parlamentares efetivamente pagos à entidade.
O nome de Pollon não aparece entre os autores das emendas recebidas pelo hospital nos dois exercícios. Somente em 2024, a instituição contabilizou R$ 238,7 milhões em repasses parlamentares, com identificação nominal dos responsáveis pelas indicações e o deputado sul-mato-grossense não consta na relação.
Os documentos acrescentam um novo elemento ao rastreamento da emenda milionária, que permanece sem destino comprovado.
Pollon sustenta que pediu ao governo de São Paulo a transferência do recurso para o Hospital de Amor depois que o projeto audiovisual originalmente beneficiado não avançou.
A versão foi apresentada pelo deputado em maio deste ano, quando o caso começou a ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Até agora, entretanto, não foi divulgado nenhum documento que comprove a saída do dinheiro dos cofres paulistas ou o pagamento ao hospital de Barretos.
Os relatórios encaminhados pela instituição ao Jornal Correio do Estado registram os valores efetivamente recebidos e não há pagamento identificado em nome do parlamentar nos anos de 2023 e 2024, conforme informou a analista de marketing do Hospital de Amor, Paola Vantini.
VERBA PARADA
A União transferiu R$ 1 milhão ao governo de São Paulo no dia 13 de dezembro de 2024. Passados mais de 21 meses, a verba permanece sem execução e não foi aplicada no projeto para o qual havia sido inicialmente destinada.
A emenda deveria financiar a série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”, sob responsabilidade da Academia Nacional de Cultura (ANC), produtora de “Dark Horse”, filme que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Pollon afirma que indicou o recurso em 2023, com previsão de pagamento no início de 2024. Segundo ele, o projeto não saiu do papel porque a ANC não conseguiu cumprir os requisitos necessários à execução.
O termo de fomento entre o governo paulista e a entidade nunca foi assinado, e o plano de trabalho não recebeu aprovação.
Relatório de gestão datado do dia 1º de junho deste ano apontava execução de R$ 0 e indicava que o valor integral continuava pendente.
Consulta feita ao Transferegov até o dia 9 deste mês também não apresentava mudança na finalidade da emenda, novo plano de trabalho, devolução do dinheiro à União ou transferência ao Hospital de Amor.
Formalmente, o recurso permanecia vinculado ao projeto cultural e sob responsabilidade do governo de São Paulo.
REALOCAÇÃO
O deputado voltou a se manifestar depois que seu nome foi citado na decisão do ministro Flávio Dino, do STF, que autorizou a Operação Make Up.
Deflagrada pela Polícia Federal no dia 10 deste mês, a ação investiga suspeitas de irregularidades na aplicação de emendas parlamentares.
Pollon declarou que nenhum valor foi repassado à entidade que produziria “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem” e reiterou ter solicitado a mudança da destinação. “Como o projeto não saiu do papel, solicitei ao governo do estado de São Paulo que o recurso separado para esse projeto fosse realocado e destinado ao Hospital de Amor de Barretos”, afirmou o parlamentar.
Ele argumenta que o hospital atende milhares de pacientes de Mato Grosso do Sul em tratamento contra o câncer.
Também sustenta que a indicação para São Paulo ocorreu antes das restrições impostas pelo STF, em agosto de 2024, à destinação de determinados recursos parlamentares para estados diferentes daquele que elegeu o congressista.
Essa, no entanto, é a interpretação apresentada pela defesa de Pollon sobre as regras aplicáveis ao caso. Não há, nos dados oficiais consultados, comprovação de que o pedido de redirecionamento tenha sido concluído.
OPERAÇÃO MAKE UP
A emenda voltou ao centro das atenções com a deflagração da Operação Make Up. Na decisão que autorizou as diligências, Flávio Dino destacou que Pollon, eleito por MS, destinou R$ 1 milhão a um projeto que seria executado em São Paulo.
O ministro apontou uma possível irregularidade relacionada à vinculação territorial dos recursos. A citação do parlamentar na decisão, contudo, não significa, por si só, que ele tenha participado de eventual desvio.
A operação cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Ceará e no Distrito Federal.
Entre as entidades investigadas estão a ANC, o Instituto Conhecer Brasil e a Go Up Entertainment, organizações ligadas à empresária Karina Ferreira da Gama. Karina também está ligada à produção de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.
A investigação pretende esclarecer a circulação de dinheiro público entre entidades e empresas, além de possíveis irregularidades na execução das emendas.
* Saiba
MPMS contesta ação de deputado contra jornal
O Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) contestou a tramitação, na Justiça Estadual, da queixa-crime apresentada pelo deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) contra jornalistas do Correio do Estado. Para o órgão, as reportagens questionadas tratam de fatos relacionados ao exercício do mandato parlamentar e, por isso, a ação deve ser analisada pela Justiça Federal.
Pollon acionou os jornalistas Eduardo Miranda e Alicia Miyashiro, além do jornal, atribuindo-lhes supostos crimes de difamação e injúria pela publicação de duas reportagens sobre a destinação de emendas parlamentares e as entidades envolvidas no caso.
A controvérsia inclui a emenda de R$ 1 milhão destinada à produção da série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”. O projeto seria executado pela Academia Nacional de Cultura, entidade ligada à produção de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ao se manifestar no processo nº 0812381-50.2026.8.12.0110, o promotor de Justiça Júlio Bilemjian Ribeiro afirmou que os fatos abordados pelas reportagens estão vinculados à atuação de Pollon como deputado federal, e não à vida privada do parlamentar.
“Observa-se da própria narrativa constante da queixa-crime que as alegadas ofensas não dizem respeito a aspectos da vida privada do querelante, mas sim a fatos diretamente relacionados ao exercício de seu mandato parlamentar federal”, registrou o promotor.
O parecer não analisou se houve difamação ou injúria, nem julgou o mérito das reportagens. A manifestação ficou restrita à definição da competência para processar o caso. Diante da relação dos fatos com o mandato federal, o MPMS pediu que a Justiça Estadual reconheça a própria incompetência e encaminhe a ação à Justiça Federal.
Enquanto a disputa judicial permanece em análise, continua sem comprovação pública o efetivo repasse ao Hospital de Amor dos R$ 1 milhão inicialmente destinados ao projeto cultural. Os relatórios da instituição referentes a 2023 e 2024 não registram pagamento em nome de Pollon, e os dados oficiais mais recentes mantêm a execução zerada.



