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Apreensão milionária em MS revela nova escala do contrabando na fronteira

Receita citou R$ 20 milhões em perfumes e R$ 1,5 milhão em remédios apreendidos no Estado

| ÂNGELA KEMPFER / CAMPO GRANDE NEWS


Caminhão foi necessário para apreensão de mercadorias contrabandeadas no Bairro Coronel Antonino em 2025 (Foto: Arquivo)

Uma apreensão milionária em Mato Grosso do Sul foi usada pela Receita Federal para exemplificar como o contrabando na fronteira deixou de ser uma atividade pulverizada e passou a operar em escala maior, com logística estruturada e participação de organizações criminosas.

Durante um seminário em Brasília sobre o crescimento do mercado ilegal no Brasil , o superintendente regional adjunto da Receita Federal na 1ª Região Fiscal, Erivelto Moysés Torrico Alencar, relatou uma apreensão de R$ 20 milhões em perfumes e outra de R$ 1,5 milhão em medicamentos emagrecedores transportados por uma única pessoa em Mato Grosso do Sul. O flagrante foi em outubro de 2025, em depósito no Bairro Coronel Antonino, em Campo Grande.

Em material sobre o seminário, do Jornal O Globo, especialistas e autoridades falam da expansão de estruturas criminosas para diferentes cadeias de produtos, além do tráfico de drogas.

O jornal cita estudo do Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras). A entidade estima que o contrabando entre Brasil e Paraguai movimente cerca de R$ 60 bilhões por ano. O valor supera com folga o comércio formal entre os dois países citado no levantamento.

Ainda conforme a reportagem, segundo o MPF (Ministério Público Federal), apenas entre 5% e 10% das mercadorias provenientes de contrabando e descaminho que entram no Brasil pela fronteira com o Paraguai são efetivamente apreendidas. A estimativa reforça a dificuldade de medir o tamanho real do mercado ilegal apenas pelos produtos interceptados.

A Receita Federal enfrenta problema semelhante em nível nacional. O valor das apreensões feitas pelo órgão passou de R$ 3 bilhões em 2022 para R$ 4,2 bilhões em 2025, mas Alencar afirmou que estudos indicam que esse volume representaria entre 0,5% e 1% de tudo o que entra irregularmente no país.

De carros a caminhões

Uma das principais transformações apontadas pelos especialistas está na logística. Segundo Luciano Barros, presidente do Idesf, organizações criminosas passaram a aplicar no contrabando a experiência acumulada no tráfico de drogas.

Antes, boa parte das apreensões envolvia pequenas quantidades transportadas em carros, ônibus ou por diversas pessoas. Agora, segundo ele, as autoridades encontram caminhões carregados com diferentes tipos de mercadorias, que podem reunir cigarros, medicamentos, agrotóxicos e drogas na mesma estrutura logística.

Essa profissionalização reduz custos. Estudo do instituto estima que grupos envolvidos no comércio ilegal operem com custo médio de distribuição de 22%, permitindo margens muito elevadas.

Os cigarros clandestinos aparecem no levantamento com lucro estimado de 507%. Telefones celulares chegam a 390%, mesmo percentual atribuído aos brinquedos. Óculos aparecem com margem de 312% e baterias, de 285%.

A combinação entre lucro elevado, demanda e estrutura já montada para distribuição ajuda a explicar o interesse de organizações como PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho), citadas pelos especialistas como grupos que ampliaram a atuação para além do tráfico de drogas.

O comércio clandestino teria começado a atrair essas organizações principalmente pelos cigarros e depois avançado para combustíveis, bebidas e medicamentos. Mais recentemente, as canetas utilizadas para emagrecimento passaram a integrar esse mercado.

A diferença é que o risco financeiro e penal pode ser menor. O delegado-executivo da PF (Polícia Federal) em Foz do Iguaçu, Sérgio Luis Stinglin, explicou que a perda de uma carga contrabandeada costuma ser menos onerosa para as organizações do que a perda de drogas. As penas também podem ser menores, quando não há investigação capaz de demonstrar a existência de uma organização criminosa por trás da operação.

Segundo o delegado, a dinâmica observada na fronteira difere de regiões onde facções disputam diretamente o controle territorial. Nesse caso, a lógica é sobretudo econômica: os grupos procuram produtos com demanda elevada e possibilidade de lucro.

Remédios entram no radar

Os medicamentos se tornaram um dos exemplos mais recentes dessa diversificação. Na Receita Federal, as apreensões de remédios emagrecedores saltaram de R$ 4 milhões entre janeiro e junho de 2025 para mais de R$ 80 milhões no mesmo período deste ano.

Em apenas três meses de 2026, a PF (Polícia Federal) já havia apreendido 4.544 unidades de medicamentos ilegais para emagrecimento em Mato Grosso do Sul, superando as 3.400 unidades recolhidas em todo o ano de 2025 e ficando muito acima das cinco apreensões registradas em 2024. O avanço acompanha uma tendência nacional.

Dados reunidos pelo Idesf mostram ainda que, nos últimos cinco anos, as apreensões de medicamentos ultrapassaram R$ 100 milhões.

As chamadas canetas emagrecedoras apresentam uma evolução ainda mais rápida. Em 2024, foram apreendidas 2.544 unidades pela Receita Federal. Em 2025, o número chegou a 30.011, aumento de aproximadamente 1.080%.

Para os seis primeiros meses de 2026, dados acompanhados pelo instituto projetavam 150 mil unidades apreendidas.

Além da questão econômica, a entrada irregular desses medicamentos representa risco sanitário. A Receita alerta que produtos introduzidos clandestinamente no país podem escapar das verificações de procedência, armazenamento e controle exigidas no mercado regular.

Os perfumes também aparecem entre os produtos de risco citados pelo órgão. No caso mencionado por Alencar, o carregamento apreendido em Mato Grosso do Sul foi avaliado em R$ 20 milhões.

Do cigarro ao agrotóxico

A diversificação não termina nos produtos de consumo. No agronegócio, especialistas alertam para a entrada de defensivos falsificados, contrabandeados ou proibidos no Brasil.

Um dos exemplos citados é o paraquat, herbicida banido no país devido aos riscos à saúde humana e ao meio ambiente. Nos últimos anos, as apreensões do produto são consideráveis em Mato Grosso do Sul

Uma carga de 17 mil quilos de agrotóxicos contrabandeados do Paraguai, avaliada em pelo menos R$ 17 milhões, foi apreendida pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) na BR-163, em Dourados em 2022. Um ano depois, outro caso envolvendo o paraquat veio à tona. O produto foi encontrado em uma propriedade rural de Terenos, a 25 km de Campo Grande, durante investigação do Ministério Público sobre o uso irregular de inseticidas em lavouras próximas ao Córrego Piraputanga, utilizado pela comunidade quilombola ARQTEC (Associação de Remanescentes de Quilombolas Tertuliano e Canuta).

Segundo Leandro Piquet, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP (Universidade de São Paulo), resíduos de substâncias não autorizadas podem produzir consequências que vão além do campo.

A utilização de defensivos ilegais em culturas como a soja pode resultar em barreiras comerciais e fechamento de mercados externos para produtos brasileiros.

Também ganharam espaço nas rotas clandestinas os dispositivos eletrônicos para fumar. Os vapes são apontados como produtos relevantes no contrabando entre Paraguai e Brasil.

Mercado de quase meio trilhão

O problema extrapola a fronteira. Dados do FNCP (Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade) mostram que as perdas provocadas pelo mercado ilegal no Brasil passaram de R$ 100 bilhões em 2014 para R$ 473 bilhões em 2025.

O presidente da entidade, Edson Vismona, avalia que a alta rentabilidade do comércio clandestino cria recursos capazes de financiar outras atividades criminosas.

Especialistas apontam que o dinheiro obtido com contrabando pode ampliar a capacidade das organizações para comprar armas, recrutar pessoas, corromper agentes públicos e financiar a logística de outras atividades ilegais.

Ouvido pelo O Globo, Rodolpho Ramazzini, diretor da ABCF (Associação Brasileira de Combate à Falsificação), disse que a combinação de alta tributação de determinados produtos, fiscalização insuficiente e capacidade financeira das organizações abre espaço para lucros elevados.

A resposta, segundo os especialistas, não depende apenas de aumentar penas. Leandro Piquet defende maior integração entre inteligência policial, tributária e financeira para identificar empresas, movimentações de dinheiro e estruturas utilizadas para dar aparência legal às operações ilegais.




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