PUBLICIDADE

Do nome à filiação, 3 infelizes coincidências levaram médica à prisão por engano

Ana Paula e mulher condenada nasceram no mesmo lugar e até os nomes dos pais são praticamente iguais

| MAURíCIO AGUIAR / CAMPO GRANDE NEWS


Médica ficou 26 dias sob custódia da Justiça, incluindo o tempo que ficou presa e com tornozeleira eletrônica (Foto: Reprodução)

Um conjunto de coincidências quase inacreditável ajudou a colocar, por engano, a médica Ana Paula Nunes dos Santos no lugar de uma condenada por organização criminosa e tráfico de drogas. As duas têm o mesmo nome, nasceram no Pará, têm pai chamado Paulo e mãe chamada Maria. O problema é que as semelhanças paravam por aí.

A médica nasceu em 1999, em Redenção (PA), enquanto a mulher investigada nasceu 11 anos antes, em 1988, em Santana do Araguaia. Os nomes completos dos pais também são diferentes: Maria Evilane Nunes e Paulo Pereira dos Santos são os pais da médica; Maria do Socorro Nunes e Paulo Custódio dos Santos, os da condenada. Os CPFs, obviamente, não coincidem e provavelmente não foram checados no momento da montagem da peça que denunciou quadrilha do tráfico à Justiça.

Ainda assim, os dados da médica foram associados à investigada durante o desdobramento da Operação Fim de Rota, conduzida pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). A investigação mirava uma quadrilha instalada no Assentamento Itamarati, em Ponta Porã, responsável por enviar drogas para Minas Gerais e Goiás.

Com a troca, Ana Paula passou a constar no processo como uma das chefes do esquema. A ação tramitou por seis anos sem que ela soubesse que seu nome estava ligado ao caso.

O erro só veio à tona quando a médica desembarcou no Aeroporto Internacional de Campo Grande e foi abordada por policiais. O mandado de prisão trazia os dados dela, que também haviam sido inseridos no BNMP (Banco Nacional de Mandados de Prisão).

Segundo autos do Ministério Público a que o Campo Grande News teve acesso, a Ana Paula condenada exercia papel de gestão na organização, ao lado do marido, conhecido como 'Gordão'. Ela e o companheiro eram responsáveis pela compra e transporte da droga, pagamento dos integrantes e custeio de assistência jurídica para os membros que acabavam presos.

A investigada também é apontada como uma das “gestoras logísticas' do grupo. Cabia a ela e a outras três mulheres, também esposas de integrantes, o controle de veículos, armazenamento de entorpecentes e a distribuição dos lucros, bem como auxiliar os integrantes com assistência jurídica.

No decorrer das investigações, o Gaeco apreendeu 13,5 toneladas de maconha. Na residência da acusada e de “Gordão', os agentes encontraram um caderno com a contabilidade do tráfico, incluindo registro de pagamentos, despesas do transporte e codinomes dos envolvidos. A estimativa do MP é que o grupo tenha movimentado ao menos R$ 240 mil.

Intimada, mas não corrigida - No curso do processo, a verdadeira Ana Paula foi condenada a 3 anos e 6 meses de prisão. Chama atenção o fato de que , enquanto os dados da médica permaneciam erroneamente cadastrados nos autos, a verdadeira ré chegou a ser intimada, apresentou defesa por meio de advogado e acionou a Justiça para tentar revogar sua prisão.

Ainda assim, o mandado expedido e cumprido no Aeroporto da Capital no início de agosto trouxe os dados pessoais e o CPF da médica, o que resultou na sua prisão e no uso de tornozeleira eletrônica.

A reportagem entrou em contato com o MPMS para questionar o motivo de os dados da médica terem sido incluídos na denúncia do Gaeco, mas não houve resposta até o fechamento. O espaço permanece aberto para manifestação.

Presa por engano – A médica Ana Paula Nunes dos Santos foi presa no dia 05 de agosto no Aeroporto Internacional de Campo Grande, quando a Polícia Federal cumpriu um mandado de prisão expedido pelo TJMS (Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul).

Confundida com a verdadeira condenada, a médica ficou dois dias detida numa Delegacia de Polícia Civil, sem amamentar a filha de seis meses e ainda teve que usar tornozeleira eletrônica até a retirada do aparelho, nesta segunda-feira (31), após a Justiça revogar às medidas cautelares.

A médica conta que sofreu uma série de “humilhações' enquanto ficou sob custódia da Justiça e afirma ter sido ofendida por um delegado plantonista, que a teria chamado de “vagabunda '.

O erro também trouxe uma preocupação além do constrangimento. Formada em Medicina no Paraguai, Ana Paula busca a revalidação do diploma no Brasil e já foi aprovada na primeira etapa.

Ela teme que uma condenação criminal ligada indevidamente ao seu nome possa prejudicar o registro profissional no CRM (Conselho Regional de Medicina), que pede a apresentação de certidões criminais negativas.

Ana Paula também é servidora pública municipal em Dourados e diz que a situação poderia colocar seu cargo em risco.

Agora, a médica busca a retirada definitiva do nome dela da ação penal, na qual, segundo ela relata, continua aparecendo indevidamente como ré. Ela também pretende entrar com uma ação de indenização contra o Estado.

 


PUBLICIDADE
PUBLICIDADE