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Operação Gutenberg chega à Justiça com 17 denunciados e pedido milionário

Família Jafar e mais 13 foram denunciados por organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro

| ALINE DOS SANTOS E MARISTELA BRUNETTO / CAMPO GRANDE NEWS


Na 1ª linha, da esquerda para direita: Rossana, Olívia, Felipe e Giovanni Jafar. Na 2ª linha, Rhayane, Heyder, Francisco e Ed Carlo. Na 3ª linha,  Jessyca , Gabriel,  Eronivaldo, Paulo e Douglas.

O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) denunciou 17 pessoas na Operação Gutenberg, que foi às ruas em 7 de julho contra esquema de corrupção por meio de livros paradidáticos, com tentáculos na regulação de vagas para atendimento no SUS (Sistema Único de Saúde).

A denúncia por organização criminosa, corrupção e lavagem de dinheiro chegou à 2ª Vara Criminal de Campo Grande na sexta-feira (dia 24) e ainda não houve decisão. O pedido de ressarcimento aos cofres públicos é de R$ 27 milhões.

Quatro denunciados são da família Jafar, herdeiros da Gráfica Alvorada. A lista tem Rossana Paroschi Jafar (empresária e cirurgiã-dentista), Giovanni Paroschi Jafar (empresário), Olívia Paroschi Jafar (médica) e Felipe Paroschi Jafar (que foi exonerado da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos após a operação).

Outro nome relacionado ao clã Jafar é Rhayane Souza Fanaia. Ela foi casada com Giovanni Jafar e foi a primeira administradora formal da Editora Avante (que já se chamou Souza & Fanaia Comércio de Livros e Serviços Editoriais Ltda). A estratégia, segundo a investigação, foi para ocultar a participação da família Jafar no negócio. Com sede em São Paulo (SP), a editora é apontada como epicentro de um esquema de corrupção. Antes de abrir a Avante, Rhayane era dona de brechó na Capital.

Também na lista de denunciados, Heyder Bartz está foragido. Durante a investigação, ele foi apontado como um dos líderes do esquema. Heyder é proprietário da Superconteúdo Digital, empresa de marketing e editora de livros que recebeu R$ 455.593,05 da Avante.

O empresário Francisco Anizio dos Santos, na investigação, foi colocado no núcleo que teria influência sobre as decisões administrativas e financeiras da Editora Avante, ao lado de Rossana e Heyder.

O Gaeco também denunciou Ed Carlo Britto Burgatt e Jessyca Duarte Burgatt, respectivamente pai e filha. Ed Carlo tem longa trajetória no serviço público, com 25 anos no quadro da administração estadual. Desde 2015, ele aparece em notícias e no Diário Oficial do Estado como titular do cargo de coordenador da regulação da SES (Secretaria Estadual de Saúde). A operação fez “batida' na sala dele no Core (Complexo Regulador Estadual), na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande.

No relatório da investigação, Ed Carlo surge em diálogos sobre contratos da Avante e uso da estrutura da saúde para obter vantagens nas negociações.

Jessyca Duarte Burgatt integra o quadro societário de uma operadora de planos de saúde, com sede em Três Lagoas . Conforme a operação, ela recebeu R$ 52 mil da Editora Avante e repassou R$ 50 mil ao pai.

O advogado Gabriel Taquino de Paula era emissário da editora para vendas. Ele aparece em diálogos com Ed Carlo. Num deles, travado em 21 de fevereiro de 2022, comemora: “gente vai ganhar um dinheiro sem fazer nada'.

Também pai e filho, Joatan Gomes Peixoto e Matheus Oliveira Peixoto foram denunciados à Justiça. Joatan foi um dos administradores da Avante durante o período da apuração, sucedendo Rhayane.

A quebra do sigilo bancário mostra que Matheus Peixoto recebeu R$ 121.500 da Editora Avante entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023, apesar de não ter nenhum vínculo com a empresa.

A lista de denunciados ainda traz os empresários Paulo Rogério de Melo e Douglas Henrique Melo, pai e filho. Na investigação, o Gaeco aponta que a Atalaia Veículos, Douglas e o pai receberam R$ 826.311,94 da editora, no período entre 2022 e 2024.

Ex-prefeito de Fátima do Sul, Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior, conhecido como Júnior Vasconcelos, também foi denunciado. Em apenas um dia, ele recebeu R$ 22,5 mil da Avante.

A lista de denunciados pelo Gaeco ainda tem Valesca Thais Albuquerque Teixeira, terceira responsável por assinar contratos em nome da  Avante durante os três anos de investigação, e Inácio da Silva Espíndola, que usou conta de terceiro para recebimento de dinheiro.

Responsável pela defesa de Joatan e Matheus Peixoto, o advogado André Stuart afirma que as teses defensivas serão apresentadas no processo. Joatan está em prisão domiciliar humanitária e Matheus aguarda julgamento de pedido de habeas corpus.

A defesa de  Heyder Bartz informa que recebeu com serenidade o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público, tratando-se de uma etapa prevista no regular desenvolvimento do processo penal, que não representa qualquer juízo de culpa.

'Reiteramos nossa absoluta confiança de que, ao longo da instrução processual, com a produção das provas e o pleno exercício do contraditório e da ampla defesa, todos os fatos serão devidamente esclarecidos, demonstrando a efetiva realidade da atuação de Heyder. Por respeito ao devido processo legal e à própria tramitação da ação penal, a defesa não fará comentários sobre o mérito da acusação neste momento, limitando-se a reafirmar sua convicção de que a verdade prevalecerá ao final do processo', afirma a advogada Beatriz Pontes Navarini.

A reportagem entrou em contato com as defesas dos demais citados e aguarda resposta.

Lista de 17 denunciados:

Rossana Paroschi Jafar

Giovanni Paroschi Jafar

Olívia Paroschi Jafar

Felipe Paroschi Jafar

Rhayane Souza Fanaia

Heyder Bartz

Francisco Anizio dos Santos

Ed Carlo Britto Burgatt

Jessyca Duarte Burgatt

Gabriel Taquino de Paula

Joatan Gomes Peixoto

Matheus Oliveira Peixoto

Paulo Rogério de Melo

Douglas Henrique Melo

Eronivaldo da Silva Vasconcelos Júnior

Valesca Thais Albuquerque Teixeira

Inácio da Silva Espíndola

Varas criminais  - A investigação que deu origem à Operação Gutenberg começou em agosto de 2023, quando o Gaeco apresentou à Justiça o primeiro pedido de quebra de sigilos ligado ao caso. A medida foi distribuída à 2ª Vara Criminal Residual, que passou a ser considerada preventa para analisar os procedimentos relacionados aos mesmos fatos.

Em novembro daquele ano, o próprio procedimento investigatório também foi encaminhado à unidade. O histórico reapareceu durante a análise do pedido de liberdade de Ed Carlo Britto Burgatt. A defesa protocolou a solicitação em 15 de julho de 2026, um dia depois de outra negativa relacionada ao servidor.

Em 20 de julho, o Núcleo de Garantias rejeitou o novo pedido por considerar que os argumentos já haviam sido examinados e que não havia fato novo capaz de justificar a revogação da prisão. Depois do oferecimento da denúncia, em julho de 2026, os autos foram enviados inicialmente à 3ª Vara Criminal.

Em decisão liberada em 24 de julho, porém, a juíza responsável concluiu que o caso deveria voltar à 2ª Vara Criminal Residual, justamente porque essa unidade havia atuado primeiro, ainda em 2023. O percurso entre a 2ª Vara, a 3ª Vara e o Núcleo de Garantias evidencia como a origem antiga da investigação influenciou a definição do juízo responsável até mesmo na análise da negativa de liberdade de Ed Carlo.


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