'Farra das Mídias': Prefeita Lurdes já gastou mais de R$ 323 mil com veículos de comunicação com vínculos com 'Paulo Vale Verde'
Administração Municicipal de Caarapó já gastou mais de R$ 1 milhão de publicidades em menos de 2 anos
| CAARAPONEWS
Documentos apresentados à Comissão de Finanças, Orçamento e Contabilidade da Câmara de Caarapó colocam novamente sob questionamento a distribuição da publicidade institucional da Prefeitura e, principalmente, os critérios utilizados para escolher os veículos beneficiados com recursos públicos.
O levantamento chama atenção para a participação de empresas e portais que possuem ligações profissionais, empresariais ou operacionais com o grupo de comunicação comandado pelo empresário Paulo Eduardo Martins, o “Paulo da Vale Verde”, afilhado de casamento da prefeita Lurdes Portugal
O assunto já está sob apuração do Ministério Público de Mato Grosso do Sul, que instaurou procedimento para verificar denúncia sobre possível favorecimento a veículos recém-criados e eventuais vínculos entre empresas que receberam publicidade municipal. O MP, até o momento, não apresentou conclusão sobre as acusações.
Mais de R$ 330 mil identificados em quatro veículos
Considerando os valores informados na documentação analisada, quatro veículos já somam R$ 330.088,00 em recursos de publicidade da Prefeitura, sem contar outros beneficiários e valores que ainda não aparecem no conjunto de documentos analisado.
A distribuição individual é a seguinte:
Portal da Cidade: R$ 133.288,00
Alô Mídia: R$ 91.600,00
Real Mídia News: R$ 66.400,00
Comunica na TV: R$ 38.800,00
Total identificado: R$ 330.088,00.
O valor representa uma parcela dos mais de R$ 1 milhão gastos pela Prefeitura de Caarapó com publicidade institucional no período de aproximadamente um ano e oito meses, segundo o levantamento apresentado à Câmara.
Alô Mídia: R$ 91,6 mil
Entre os casos que mais chamam atenção está o Alô Mídia, grupo que passou a atuar no mercado de comunicação durante a atual administração municipal.
Segundo informações apresentadas ao Legislativo, o grupo teria recebido R$ 91.600,00 em publicidade institucional no período analisado, chegando, em determinados momentos, a pagamentos de aproximadamente R$ 12 mil mensais.
O empresário Paulo Eduardo Martins aparece publicamente como diretor do Grupo Alô Mídia. O próprio portal ligado ao grupo já publicou conteúdo identificando Martins como diretor da empresa.
A relação ganha relevância no contexto político local porque Paulo Martins possui relação pessoal com a prefeita Maria Lurdes Portugal, além de ter participado do ambiente político da atual administração, segundo informações apresentadas na denúncia.
Real Mídia News: R$ 66,4 mil
Outro caso envolve o Real Mídia News veículo criado recentemente e que passou a receber publicidade municipal pouco tempo depois de sua criação.
De acordo com os documentos analisados, o portal recebeu R$ 66.400,00 até junho de 2026. Os valores referentes a julho e agosto não estavam incluídos na documentação utilizada neste levantamento. O que chama atenção é que o veículo cujo o proprietário também é funcionário de Paulo Eduardo Martins, no grupo Alô Midia, recebe o maior valor pago mensalmente da publicidade da Prefeitura - R$ 12 mil mensais. A rádio Jota FM, uma das mais antigas da cidade e com muito mais alcance, recebe metade desse valor.
O veículo é associado ao jornalista Dilermano Alves, que também aparece ligado profissionalmente ao grupo Alô Mídia/Alô Caarapó.
A própria existência dessa conexão profissional é um dos pontos que deverão ser esclarecidos: como um veículo recém-criado passou a receber recursos públicos e quais critérios técnicos foram utilizados para incluí-lo na distribuição da publicidade municipal?
Atualmente, o Real Mídia News mantém ampla produção de conteúdo sobre ações da Prefeitura e da administração municipal.
Portal da Cidade: R$ 133,2 mil
Outro veículo que aparece com valor expressivo é um portal local que, segundo os documentos apresentados à Câmara, recebeu R$ 133.288,00 desde o início da atual administração.
A documentação também aponta para a utilização do mesmo endereço por diferentes veículos e para vínculos profissionais entre pessoas que atuam nas empresas de comunicação.
Essas circunstâncias, contudo, precisam ser comprovadas documentalmente pelos órgãos responsáveis pela apuração e não permitem, isoladamente, concluir que todas as empresas pertençam ao mesmo grupo econômico.
Comunica na TV recebeu R$ 38,8 mil
Outro beneficiário identificado foi o Comunica na TV, de Campo Grande, que recebeu R$ 38.800,00 em recursos municipais.
O portal possui presença relativamente pequena nas redes sociais, com pouco mais de 1,6 mil seguidores, conforme pesquisa nas redes sociais.
O ponto questionado não é apenas o número de seguidores, mas quais critérios de audiência, alcance, público-alvo, distribuição territorial ou capacidade de comunicação foram utilizados pela Prefeitura para justificar a contratação.
Também foram identificadas publicações em colaboração com perfis ligados ao Alô Mídia. Essa proximidade, entretanto, não é suficiente para afirmar que exista propriedade comum entre os veículos e deverá ser esclarecida na investigação.
Veja Caarapó também entra no radar
Outro veículo citado no levantamento é o Veja Caarapó, criado recentemente e que também passou a divulgar campanhas publicitárias da Prefeitura.
A proprietária, Débora Duarte trabalhava para o grupo Alô Mídia de Paulo Eduardo Martins e fazia promoção pessoal da Prefeita Lurdes Portugal e ataque a adversários. Todas as matérias eram coordenadas da mesma forma por todos esses veículos.
Como o site possui pouco tempo de existência, ainda não foi possível estabelecer, com base nos documentos analisados, quanto efetivamente recebeu dos cofres municipais até aqui
A questão levantada é semelhante à dos demais casos: quais critérios permitiram que um veículo recém-criado passasse a integrar a distribuição de publicidade institucional?
A principal pergunta: quais foram os critérios?
Mais do que os valores individualmente, a documentação coloca uma questão central para a Câmara e para os órgãos de controle: como a Prefeitura definiu os veículos que receberam publicidade e quais critérios objetivos foram utilizados para estabelecer os valores pagos a cada um?
A existência de vínculos profissionais entre integrantes de diferentes veículos, somada à concentração de recursos em empresas que aparecem relacionadas entre si, é justamente um dos pontos que deverão ser esclarecidos.
O Ministério Público já apura denúncia semelhante, envolvendo Alô Mídia Conteúdo e Comunicações, Alô Caarapó, Portal da Cidade Caarapó e Real Mídia News. Agora Veja Caarapó e Comunica na TV também entram na mira do MPE. Conforme o procedimento divulgado, a investigação busca verificar possíveis vínculos societários, editoriais ou operacionais e eventual ausência de concorrência efetiva na distribuição dos recursos.
Até o momento, não há conclusão do Ministério Público sobre eventual irregularidade, favorecimento ou direcionamento.
O caso também coloca sob análise a separação entre publicidade institucional e promoção pessoal de agentes públicos, já que a Constituição estabelece que a publicidade oficial deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social.
A Prefeitura de Caarapó, a Secretaria responsável pelos contratos e os veículos citados devem apresentar suas explicações sobre os critérios de contratação, os valores pagos, a audiência considerada e os serviços efetivamente entregues. Convocado na Câmara Municipal o secretario de Governo e Administração não explicou quais os critérios utilizados para gastos com veículos sem alcance.
Com os valores atualmente identificados, os quatro veículos já somam R$ 330.088,00 em publicidade municipal — sendo R$ 91.600,00 do Alô Mídia, R$ 66.400,00 do Real Mídia News, R$ 133.288,00 do Portal da Cidade e R$ 38.800,00 do Comunica na TV.
No total, em 1 ano e meio a Prefeitura Municipal de Caarapó gastou cerca de R$ 1 milhão em publicidade, sendo boa parte com veículos de pouco alcance e ligados ou com vinculo com "Paulo Vale Verde".




