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Pistola substitui o "três-oitão" na preferência de MS, com 54% dos registros

Estoque aumentou 240.2% no Estado e 240.3% no país desde 2017. Sob Lula 3 número dobrou na comparação com 2019

| VASCONCELO QUADROS, DE BRASíLIA / CAMPO GRANDE NEWS


Parte das armas e munições retiradas de circulação pelo Batalhão de Choque durante operação policial em Campo Grande (Foto: Divulgação)

Quem se assombrou com o aumento de 63,5% nos registros de armas de fogo em poder da população entre 2018 e 2019, quando houve um acréscimo de 410 mil armas em circulação, deveria prestar atenção nos números absolutos registrados atualmente pelo SINARM (Sistema Nacional de Armas), da Polícia Federal. Desde então, o estoque voltou a mais que dobrar: passou de 1.056.670 em 2019 para 2.171.213 armas em 2025, crescimento de 105,5% no período, apesar de o governo Lula 3 ter anunciado uma política “rigorosa' de restrição de acesso às armas e anulado decretos de seu antecessor.

Sempre em curva ascendente, os registros colocam Mato Grosso do Sul entre os estados mais armados do país. O Estado registrou aumento de 3% entre 2024 e 2025 e de 240,2% desde 2017, início da série histórica analisada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O crescimento acumulado praticamente repete o observado no país, que é de 240,3%.

Em 2025, Mato Grosso do Sul apresentou o quinto maior crescimento proporcional de armas registradas no SINARM, com alta de 3%, atrás apenas de Alagoas (4,7%), Roraima (4,6%), Rondônia (4,3%) e Amazonas (3,2%). No Centro-Oeste, liderou o avanço dos registros, enquanto Goiás teve aumento de 1,5%, Mato Grosso de 0,7% e o Distrito Federal 0,3% negativos.

Os dados do Anuário mostram ainda que o arsenal civil registrado no Estado é formado predominantemente por armas curtas. Das 40.899 armas cadastradas no SINARM em Mato Grosso do Sul, 22.044 são pistolas, o equivalente a 53,9% do total. Os revólveres aparecem em seguida, com 12.380 registros, enquanto rifles, fuzis e carabinas somam 3.820 armas e as espingardas, 2.457. Há ainda 100 metralhadoras e submetralhadoras registradas.

Apesar do crescimento contínuo do estoque de armas legalizadas, as apreensões caíram em Mato Grosso do Sul. As forças estaduais retiraram de circulação 1.751 armas em 2025, redução de 3,4% em relação às 1.799 apreendidas no ano anterior. Na Polícia Federal, o número caiu de 24 para 22 armas, retração de 8,3%. No país, por outro lado, as apreensões realizadas pelas Secretarias de Segurança Pública cresceram 5,4%, passando de 102.812 para 108.786.

Outro dado que chama atenção é o volume de armas com registro expirado. Mato Grosso do Sul encerrou 2025 com 26.370 armas nessa situação, enquanto, em todo o país, eram 1.645.399 registros vencidos, indicando que uma parcela expressiva do arsenal civil deixou de ter o cadastro renovado junto ao sistema da Polícia Federal.

Enquanto o Brasil registra crescimento dos crimes relacionados ao tráfico de drogas e amplia sua população carcerária, Mato Grosso do Sul chega ao novo ciclo de enfrentamento ao crime organizado ocupando uma posição estratégica. Além de compartilhar mais de 1.500 quilômetros de fronteira seca com Paraguai e Bolívia, principais rotas de entrada de cocaína e maconha no País, o Estado acompanha uma tendência nacional de maior pressão sobre o sistema penal justamente no momento em que o combate às facções ganha dimensão internacional.

Drogas em alta

Os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que os registros de tráfico de drogas cresceram 18,5% no Brasil entre 2024 e 2025, mantendo uma trajetória de alta observada desde a última década. Em sentido oposto, as ocorrências por porte de drogas para consumo pessoal recuaram 18,3%, movimento que o FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) associa, entre outros fatores, às mudanças provocadas pela decisão do Supremo Tribunal Federal que definiu parâmetros para diferenciar usuário de traficante.

O avanço das ocorrências relacionadas ao tráfico tem reflexo direto sobre o sistema penitenciário. Segundo o Anuário, o Brasil encerrou 2025 com 964.668 pessoas privadas de liberdade, aumento de 5,6% em relação ao ano anterior. Mesmo com a expansão das vagas, o déficit permanece elevado, chegando a 281.213 lugares, situação que mantém os presídios operando acima da capacidade em boa parte do País.

Sistema prisional

Os indicadores estaduais do Anuário mostram que a pressão acompanha o cenário nacional. Os registros de tráfico de drogas passaram de 3.799 para 4.085 entre 2024 e 2025, alta de 5,2%. Ao mesmo tempo, o sistema penitenciário encerrou o ano com 26.174 pessoas privadas de liberdade para 14.563 vagas, um déficit de 11.611 lugares, menos 10,5% comparado com 2024, quando os presos eram 29.260.

O Estado manteve uma taxa de ocupação próxima de 1,8 preso por vaga, evidenciando que a estrutura prisional continua operando acima de sua capacidade. Em razão da posição geográfica do Estado, esses dados ganham relevância adicional, já que a fronteira continua sendo um dos principais corredores utilizados pelas organizações criminosas para abastecer o mercado brasileiro de drogas.

Blindagem do território

Para o FBSP, o crescimento das ocorrências de tráfico não significa necessariamente aumento da circulação de entorpecentes. Parte da alta pode refletir maior capacidade de investigação e repressão das forças de segurança. Ainda assim, o conjunto dos indicadores demonstra que o sistema de Justiça Criminal continua absorvendo um número crescente de pessoas presas por crimes relacionados ao comércio ilegal de drogas, mantendo elevada a pressão sobre o sistema penitenciário.

Essa realidade ganha novo significado diante das mudanças ocorridas no cenário internacional nos últimos meses. Após os Estados Unidos classificarem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, ampliou-se a cooperação entre autoridades norte-americanas e países da América do Sul no enfrentamento às facções transnacionais. No Paraguai, militares norte-americanos passaram a atuar em atividades de cooperação e treinamento com as forças locais, reforçando o monitoramento de áreas consideradas estratégicas para o combate ao narcotráfico.

Tropas na fronteira

Do lado brasileiro, o Exército desenvolve a Operação Jaguaretê na faixa de fronteira. Segundo apuração, uma das preocupações é ampliar a presença militar em áreas sensíveis e evitar situações que possam gerar questionamentos sobre a soberania brasileira diante do novo ambiente de cooperação internacional. Um especialista em Forças Armadas ouvido pela reportagem avaliou que qualquer atuação em território nacional permanece submetida exclusivamente às autoridades brasileiras, não havendo espaço para operações estrangeiras em solo brasileiro, a menos que seja por meio de cooperação, algo que faz parte da relação histórica com os militares norte-americanos.

Embora o Anuário não trate diretamente desse novo contexto geopolítico, seus números ajudam a explicar por que Mato Grosso do Sul permanece no centro das políticas nacionais de combate ao crime organizado. O Estado reúne algumas das principais rotas de entrada de drogas no País, concentra operações permanentes das forças federais e estaduais e abriga estruturas voltadas ao monitoramento da fronteira, como o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), desenvolvido pelo Exército.

Ao mesmo tempo, o crescimento da população carcerária evidencia outro desafio. Especialistas apontam que o encarceramento em massa, sem expansão proporcional da estrutura prisional e das políticas de ressocialização, pode fortalecer a influência das organizações criminosas dentro dos presídios, ambiente historicamente utilizado para recrutamento e articulação das facções.

 


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