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Alta dos custos corrói lucro do agro em meio à supersafra em MS

Produtores enfrentam explosão no preço dos fertilizantes, crédito mais restrito e avanço das recuperações judiciais no campo

| CORREIO DO ESTADO / SÚZAN BENITES


Mato Grosso do Sul colheu a maior safra de soja da história este ano - Gerson Oliveira / Correio do Estado

Apesar de Mato Grosso do Sul colher a maior safra de soja da sua história no ciclo 2025/2026, produtores rurais enfrentam um cenário de margens cada vez mais apertadas.

A queda do lucro é impulsionada pela alta dos fertilizantes, juros elevados, restrição no crédito rural, queda no preço da soja e incertezas climáticas para o próximo ciclo agrícola.

Conforme dados do Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio (Siga-MS), o Estado estima colher 17,7 milhões de toneladas de soja na safra 2025/2026, maior volume já registrado em MS.

A produtividade média estimada é de 61,73 sacas por hectare, crescimento de 19,2% em relação ao ciclo anterior. Mesmo diante da supersafra, o ganho financeiro do produtor diminuiu.

O analista de economia da Associação da Produção de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja-MS), Raphael Gimenes, afirma que a boa produtividade já não é suficiente para garantir rentabilidade no campo.

“Mesmo com boa produtividade, muitos produtores estão obtendo menor margem financeira devido ao aumento simultâneo dos custos de produção e da volatilidade dos preços agrícolas. A rentabilidade no campo não depende apenas da quantidade produzida, mas da relação entre receita, custos e eficiência comercial”, explica ao Correio do Estado.

Segundo ele, a alta dos fertilizantes, defensivos, frete e demais insumos reduziu significativamente o resultado líquido da atividade agrícola.

“Nos últimos meses, fatores geopolíticos e oscilações no mercado internacional elevaram tanto o preço das commodities quanto dos insumos. Assim, mesmo com recuperação parcial dos preços da soja e do milho, o avanço dos custos operacionais reduz o resultado líquido da atividade”, acrescenta.

REMUNERAÇÃO

Além da disparada dos custos, os produtores sul-mato-grossenses também enfrentam queda na remuneração da soja. Dados da Granos Corretora mostram que a saca de 60 quilos, que atingiu R$ 178,50 em maio de 2022, caiu para R$ 111,88 em maio deste ano, retração de 37,3% em relação ao pico registrado durante o ciclo de alta das commodities.

Após o auge de preços entre 2021 e 2022, as cotações perderam força. Em maio de 2023, a saca recuou para R$ 118,63. Em 2024, houve leve recuperação para R$ 123,75, mas os preços voltaram a cair em 2025 e 2026.

O movimento ajuda a explicar o estreitamento das margens no campo. Enquanto os custos de produção seguem pressionados por fertilizantes, combustíveis e juros elevados, a receita do produtor diminui com a desvalorização da commodity.

Conforme já publicou o Correio do Estado, a pressão sobre os custos é confirmada pelos números da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

O fertilizante NPK 04-30-10, um dos mais utilizados nas lavouras sul-mato-grossenses, saltou de R$ 3.355 para R$ 5.544 por tonelada entre março de 2025 e março deste ano, uma disparada de 65,2%.

Outros insumos também subiram. O calcário dolomítico teve alta de 9,9%, enquanto o gesso agrícola avançou 11,4%.

Na avaliação do analista de economia da Aprosoja-MS, Linneu Borges, o momento exige cautela dos produtores diante das incertezas internacionais.

“O momento é de grande cautela. As condições globais estão voláteis e qualquer mudança gera um efeito para o produtor, e como são consideradas variáveis externas ao seu controle, ele se torna refém das decisões estrangeiras”, avalia. Ainda segundo o analista, o aumento do preço do petróleo e dos fertilizantes, aliado às dificuldades no crédito rural, obriga o produtor a reforçar o planejamento financeiro.

 

“As análises recentes mostram que com o alto preço dos fertilizantes, aliado ao crescimento vertiginoso do preço do barril de petróleo no ano e às condições desfavoráveis em questões de crédito rural, o produtor deve realizar um planejamento futuro bem estruturado”, diz Borges.

Enquanto o custo da soja teve alta mais moderada, próxima de 2% entre as duas últimas safras, o milho apresentou avanço mais expressivo.

“A cultura do milho apresentou aumento na casa dos 8%, sendo que boa parte das despesas de custeio da lavoura teve alta significativa. Esse custo desfavorável ao produtor é representado pela diminuição da participação do milho na segunda safra e pelo surgimento de outras culturas no mesmo período”, detalha Borges.

Os efeitos já aparecem no campo. Atualmente, o milho safrinha ocupa cerca de 48% da área cultivada com soja em MS, porcentual bem abaixo dos cerca de 71% registrados em outros anos.

RISCOS

O coordenador técnico da Aprosoja-MS, Gabriel Balta, afirma que os produtores passaram a antecipar a compra de fertilizantes para tentar reduzir riscos em meio às turbulências internacionais.

“No Mato Grosso do Sul, o produtor rural tem se antecipado cada vez mais no planejamento da compra de fertilizantes, em um cenário marcado por custos elevados e maior exigência de eficiência nos investimentos”, explica ao Correio do Estado. Segundo ele, o atual momento exige decisões cada vez mais técnicas. “Diante da atual compressão da rentabilidade, aumenta a demanda por embasamento técnico e científico que sustente cada decisão”, pontua

Balta alerta ainda que, apesar da recomposição dos estoques nacionais de fertilizantes, as importações em Mato Grosso do Sul tiveram forte retração, o que preocupa o setor.

De acordo com a Aprosoja-MS, houve queda de 48% nas importações de nitrogênio, 19% de potássio e 93% de fosfatados no Estado. “O cenário aumenta a pressão sobre os fertilizantes, agravada por conflitos internacionais e pela intensificação da competição global”, afirma.

Além do encarecimento da produção, o agro sul-mato-grossense também enfrenta dificuldades para acessar crédito rural. De acordo com Raphael Gimenes, o aumento dos juros fez os bancos endurecerem as exigências para financiamentos, especialmente para médios e pequenos produtores.

“Com o crédito mais caro, as instituições financeiras passaram a adotar critérios mais rígidos de concessão, aumentando exigências de garantias e reduzindo a oferta de linhas subsidiadas”, explica.

Dados do Banco Central apontam retração de aproximadamente 15% nas operações de custeio rural entre março e abril deste ano em Mato Grosso do Sul. Já nas linhas de investimento e industrialização, a queda média chegou a 40,8%.

“O cenário demonstra que os produtores têm evitado financiamentos de longo prazo devido ao elevado custo financeiro e ao aumento do risco de endividamento”, afirma Gimenes.

RECUPERAÇÃO

A deterioração financeira já aparece nos tribunais. Conforme já antecipou o Correio do Estado, dados da Serasa Experian mostram que Mato Grosso do Sul registrou 216 pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio em 2025.

O número representa aumento de 118% em relação a 2024 e crescimento de 756% na comparação com 2023, quando haviam sido registrados apenas 25 pedidos.

“A Aprosoja Mato Grosso do Sul tem acompanhado o aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio sul-mato-grossense, reflexo direto do cenário de juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos de produção e redução das margens do produtor rural”, destacou Gimenes.

A preocupação agora se volta para a próxima safra e para os possíveis impactos do El Niño. Segundo Gabriel Balta, o risco existe principalmente se os produtores reduzirem investimentos em tecnologia e manejo para cortar custos.

“O produtor tende a direcionar seus investimentos de forma a garantir retorno, especialmente na adubação. Já no controle de pragas, plantas daninhas e doenças, a redução de investimentos pode comprometer a eficiência do manejo”, alerta. Balta ainda ressalta que sementes de menor tecnologia podem exigir mais aplicações defensivas e aumentar os custos operacionais ao longo do ciclo. “Essa necessidade adicional de intervenções eleva os custos operacionais e, ao mesmo tempo, pode resultar em queda de produtividade. Em situações mais extremas o cenário pode levar até mesmo ao abandono da lavoura”.


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