Denúncia aponta cortes no repasse da Prefeitura e risco iminente de colapso no Hospital São Mateus de Caarapó
Enquanto serviços essenciais são descontinuados, gestão municipal tenta inflar números de repasses para minimizar impactos dos cortes no custeio da saúde
| CAARAPONEWS
A crise na saúde pública de Caarapó ganhou novos contornos após a médica Valiane Branco Folkis, ex-diretora técnica do Hospital São Mateus, denunciar publicamente cortes promovidos pela Prefeitura Municipal de Caarapó no custeio de serviços essenciais prestados à população. As declarações, feitas nas redes sociais, escancararam o que profissionais da área já vinham alertando: o hospital corre sério risco de entrar em colapso financeiro e operacional.
Em tom de indignação, Valiane criticou a postura da administração municipal, afirmando que a gestão ignora a relevância do hospital para o município.
“É lamentável a gestão municipal não ter entendido, após um ano, a importância do Hospital São Mateus para Caarapó. É triste saber que um profissional como o doutor Franserg, que atende toda a demanda de traumas, deixará de prestar atendimento porque a Prefeitura não quer arcar com os custos”, escreveu.
A médica também denunciou o encerramento do custeio da equipe de anestesia que dava suporte a cirurgias realizadas na cidade, inclusive cesarianas eletivas. “Esses atendimentos simplesmente deixarão de existir”, alertou.
Serviços cortados e economia milionária
Após a repercussão das denúncias, o CaarapoNews apurou que a Prefeitura decidiu retirar do plano de trabalho de 2026 serviços fundamentais, como a ortopedia de urgência, cirurgias ortopédicas, cirurgias de baixa complexidade e o custeio do anestesista especialista que vinha de Naviraí. Entre os profissionais afetados estão o ortopedista Franserg Sacomam e o cirurgião Silvio Ueda.
Segundo fontes ligadas à direção do hospital, a decisão foi objetiva e sem margem para negociação. “A proposta do Executivo veio curta e direta: retirar serviços para reduzir o repasse”, afirmou uma fonte.
Conforme apurado pela reportagem, com esses cortes a Prefeitura deixará de repassar cerca de R$ 90 mil por mês ao hospital — valor que ultrapassa R$ 1 milhão por ano. A economia nos cofres públicos, porém, representa perda direta de atendimentos à população.
Histórico de perdas na saúde
A atual situação não é inédita. Em 2025, no início da gestão da prefeita Maria de Lourdes (PL), o hospital já havia enfrentado a suspensão de serviços e a perda de profissionais em razão de impasses relacionados ao custeio.
Ainda em 2025, o hospital perdeu o atendimento do médico Antônio Andrade Jr., que atuava nas áreas de obstetrícia e ginecologia. Segundo fontes, a saída ocorreu após a Prefeitura se recusar a reajustar os valores repassados. “A saúde de Caarapó vem sendo desmontada aos poucos”, resumiu um integrante da entidade.
Números inflados e distorção de realidade
Diante da repercussão negativa, a Prefeitura divulgou um release afirmando ter superado R$ 10 milhões em repasses ao hospital. No entanto, a análise detalhada dos números revela outra realidade. Parte significativa desse montante refere-se a recursos de convênios estaduais para obras, compra de equipamentos e ao pagamento do 13º salário — no valor de R$ 380 mil — proveniente da devolução do duodécimo da Câmara Municipal. No início de 2025, o Legislativo também repassou R$ 450 mil para auxiliar no custeio, ao qual não é detalhado na publicação da Prefeitura.
Em 2024, durante a gestão do ex-prefeito André Nezzi, o convênio de custeio do hospital foi de R$ 6,3 milhões. Além disso, houve a destinação de aproximadamente R$ 900 mil em emendas parlamentares para custeio dos atendimentos, viabilizadas junto aos parlamentares Nelsinho Trad e Luiz Ovando, totalizando cerca de R$ 7,2 milhões exclusivamente para custeio.
Já em 2025, embora o convênio tenha sido anunciado em R$ 6,8 milhões, houve o desconto de R$ 450 mil como contrapartida de obra e nenhuma emenda parlamentar foi destinada ao custeio. Na prática, o hospital passou a contar com cerca de R$ 6,35 milhões, valor inferior ao do ano anterior.
Funcionários sem salário e risco de colapso
Além da perda de serviços, o hospital enfrenta dificuldades para manter sua estrutura. Funcionários relataram atraso no pagamento do salário de dezembro, sem previsão clara de quitação.
“Disseram que talvez só depois do dia 20. Temos contas, compromissos e não podemos viver nessa incerteza, nunca passamos por isso”, afirmou uma funcionária.
Segundo membros da diretoria, a continuidade dos cortes pode tornar insustentável a manutenção da folha de pagamento e dos contratos com fornecedores. “Quem paga essa conta é a população, que ficará sem atendimento”, alertou.
A reportagem não conseguiu contato com a comunicação institucional da Prefeitura, uma vez que, até o momento, não há definição oficial sobre quem responde pela Comunicação da gestão municipal. O espaço segue aberto para que a administração municipal apresente esclarecimentos.




