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Delegado prende advogado após discussão sobre procedimentos em caso de estupro

Embate ocorreu por divergência sobre acesso aos autos e limites da atuação da defesa na fase policial

| BRUNA MARQUES / CAMPO GRANDE NEWS


O advogado Márcio Souza de Almeida (Foto: Divulgação)

O advogado Márcio Almeida foi preso em flagrante após um conflito com o delegado Felipe de Oliveira Paiva durante o interrogatório de um guarda civil metropolitano suspeito de estupro de vulnerável. A discussão ocorreu quando o advogado questionou a condução do procedimento, alegando falta de acesso a elementos do inquérito, o que foi rebatido pelo delegado, que afirmou ser aquele momento exclusivo para perguntas ao cliente.

A ADEPOL-MS repudiou a conduta do advogado, acusando-o de desacato, enquanto a OAB foi acionada para analisar o caso. O episódio expõe a tensão entre as prerrogativas da defesa e a natureza inquisitorial do inquérito policial. Ambos os lados foram procurados, mas não se manifestaram até o fechamento da matéria.

O guarda é investigado por suspeita de estuprar a sobrinha de 4 anos durante uma brincadeira de esconde-esconde no Natal. Ele foi preso em flagrante e prestava depoimento quando a discussão entre a defesa e a autoridade policial se intensificou.

Ao final do interrogatório, o delegado Felipe de Oliveira Paiva perguntou se a defesa gostaria de formular alguma pergunta ao investigado. O advogado respondeu: “Eu queria uma pergunta no quesito até de caráter criminal. A coleta de depoimento houve ou só houve uma homologação da notícia crime trazida pela Guarda?'.

O delegado explicou que aquele momento processual era destinado exclusivamente a perguntas ao cliente. “Doutor, o interrogatório é um ato para inquirir o seu cliente. Primeiro eu estou abrindo a pergunta que o senhor vai fazer pra ele', afirmou. Ao tentar continuar, foi interrompido, mas prosseguiu: “Calma aí, doutor. O senhor quer fazer alguma pergunta sobre os fatos para ele?'.

A defesa insistiu em levantar uma questão preliminar. “Tem que ter uma prejudicial, doutor', disse. O delegado rebateu: “Aqui não é ação. Aqui não existe prejudicial. Aqui não tem nada que o senhor fala que vai implicar na anulação dos fatos'.

Na sequência, o advogado alegou não ter tido acesso a elementos do procedimento e mencionou prerrogativas previstas no Estatuto da advocacia. Sustentou que não conhecia alusões fáticas colhidas anteriormente e que isso comprometeria a formulação de perguntas, pedindo o registro de requerimento e apontando possível nulidade do auto de prisão em flagrante.

Felipe de Oliveira Paiva respondeu que o inquérito policial tem natureza inquisitorial. “Aqui não tem ampla defesa. O advogado vai produzir prova em juízo. Os elementos só serão juntados ao final', afirmou. Também indeferiu pedidos para acompanhar outros depoimentos e reforçou que o flagrante já estava caracterizado, independentemente dos requerimentos apresentados.

Mesmo após novas manifestações, o delegado advertiu a defesa. “O senhor está atrapalhando a defesa do seu cliente. Tecnicamente, o senhor vai falar alguma coisa sobre o fato de estupro de vulnerável?' questionou.

O advogado ainda mencionou o artigo 7º, inciso 21, alínea A, do Estatuto da advocacia como razão final registrada. Em seguida, o interrogatório foi encerrado e a gravação finalizada. A voz de prisão foi dada após o fim do vídeo.

Nota de repúdio - Em nota, a Adepol-MS, (Associação dos Delegados de Polícia de Mato Grosso do Sul), repudiou a conduta do advogado contra o delegado Felipe de Oliveira Paiva. Segundo a entidade, o profissional elevou o tom de voz, gritou e destratou a autoridade policial durante o exercício regular da função, mesmo após orientações formais e advertência sobre crime de desacato.

A associação informou que, diante da persistência da conduta, foi dada voz de prisão em flagrante e lavrado termo circunstanciado. O caso será encaminhado ao setor jurídico da entidade para avaliação de medidas cíveis e à OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional Mato Grosso do Sul), para apuração disciplinar.

Reação da advocacia - Nas redes sociais, o conselheiro federal da OAB Mansour Elias Karmouche publicou um vídeo relatando que a Comissão de Prerrogativas foi acionada após a apreensão do celular do advogado durante a atuação profissional. Segundo ele, o episódio será analisado pela seccional e pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, com garantia de ampla defesa e contraditório.

O caso explicita um conflito antigo entre a condução do inquérito policial e a leitura das prerrogativas da advocacia. Quando o debate técnico vira disputa de autoridade, o processo não anda e o barulho passa a valer mais do que o direito.

A reportagem procurou o advogado Márcio Almeida e o delegado Felipe de Oliveira Paiva para saber se havia interesse em se manifestarem sobre o ocorrido, mas, até a publicação desta matéria, as mensagens não foram respondidas e as ligações não foram atendidas.

Estupro - O GCM (Guarda Civil Metropolitano) foi preso em flagrante suspeito de estuprar a própria sobrinha, de 4 anos, na madrugada de Natal. Segundo a mãe da criança, o crime aconteceu durante uma brincadeira de 'esconde-esconde'. O guarda nega as acusações, mas teve a arma recolhida e foi afastado até o fim das investigações.

O Campo Grande News apurou que a família mora em Alta Floresta (MT) e o guarda reside em Campo Grande há 13 anos. A irmã, a mãe do guarda e outros familiares vieram até a Capital de Mato Grosso do Sul para as comemorações de fim de ano e, inclusive, estavam hospedados na casa do servidor público.

De acordo com boletim de ocorrência no qual a reportagem teve acesso, a mãe levou a filha ao banheiro, momento em que constatou sangramento nas partes íntimas dela. Então, a menina relatou que o tio havia 'mexido em sua florzinha' enquanto brincavam de esconde-esconde.

A irmã questionou o guarda, que negou as acusações. Mesmo assim, a menina foi levada ao hospital e a Guarda Civil Metropolitana acionada. Ele acabou preso pelos colegas de farda e levado à delegacia.


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