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05/03/2018 10h05

'Não há lugar seguro', diz médica síria que trata crianças em Ghouta

R7


Médica síria Amani Ballour atende vítima da guerra na Síria Arquivo pessoal/Amani Ballour/5.3.2018

“Não há lugar seguro por aqui.” É este o depoimento da médica síria Amani Ballour, de 30 anos, que trabalha em Ghouta Oriental — o último grande reduto dos rebeldes no país governado por Bashar al-Assad.

 

Desde o último dia 18, a área habitada por 400 mil pessoas tem sido alvo de bombardeios e ataques aéreos que já deixaram mais de 600 mortos, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

 

Em entrevista ao R7, Amani afirma que prefere não revelar o nome do hospital onde trabalha por medo de represálias, mas diz que se situa no território conhecido como “setor do meio” — a porção central de Ghouta Oriental.

 

Médica síria relata caos

 

— Todos os lugares estão sendo bombardeados. Hospitais, escolas, jardins de infância. Na última semana, vimos muitas cenas difíceis e dolorosas. Muitos mortos e feridos, a maioria crianças e mulheres. Todos civis. Famílias inteiras mortas sob os destroços de suas próprias casas.

 

A síria, que nasceu em Ghouta, conta que concluiu os seis anos do curso de medicina na Universidade de Damasco em 2012. Ela ainda cursou pouco menos de um ano de especialização em pediatria, mas foi obrigada a interromper os estudos por conta do cerco do governo ao enclave rebelde — que bloqueou as linhas de transporte e abastecimento da região.

 

Em decorrência das últimas ofensivas de Assad, centros de serviços básicos ainda tiveram funcionamento afetado por danos estruturais após bombardeios, conforme relata a médica:

 

— Desde que esta campanha brutal do regime em conjunto com a Rússia começou, todos os aspectos da vida foram suspensos em Ghouta. Não há mercados ou lojas abertos. As pessoas se escondem em abrigos sem comida. Esses abrigos não contam com suprimentos básicos.

 

Nesta segunda-feira (5), comboios humanitários da ONU (Organização das Nações Unidas) começaram a chegar no enclave rebelde. No último dia 24, a organização aprovou uma resolução exigindo um cessar-fogo de um mês na região, mas, ainda assim, Amani reforça que os bombardeios não pararam.

 

— Não tenho medo de morrer porque todos vamos morrer um dia, mas machuca ver as cenas das crianças famintas e dos feridos todos os dias. Dói ver a dor dos pais que não conseguiram alimentar seus filhos por causa do cerco e são mortos sem culpa alguma.

 

Crianças na guerra da Síria

 

As cenas chocantes vivenciadas nas últimas semanas, de acordo com Amani, são incontáveis. A médica chama atenção para o sofrimento das crianças.

 

— Vimos os corpos e os restos mortais de muitas delas. As lesões são muito graves. Algumas são atingidas na cabeça e uma parte de seu cérebro permanece viva por um tempo, mas nós não podemos fazer nada por elas, detalha.

 

A médica síria ainda relembra uma situação em especial, envolvendo a mãe de um garoto desnutrido. 

 

— Foi uma das cenas mais duras que já vi na minha vida. A criança morrendo e sua mãe ao lado. Ele teve uma lesão muito grave na cabeça e estava sem comer havia dois dias porque sua família não conseguia encontrar comida. Quando encontraram, ele não podia comer porque estava muito machucado. Ele morreu com fome.

 

Em suas páginas no Facebook e no Twitter, Amani tenta registrar as condições em que trabalha na Síria e registra o sofrimento das vítimas. Ela destaca a desnutrição que atinge grande parte dos bebês na região sitiada de Ghouta Oriental.




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