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29/06/2014 18h30

'Não temos que fazer apologia às drogas, temos que fazer a marcha contra elas', diz médico

Correio do Estado


A semana que transcorreu foi marcada pelo movimento nacional antidrogas. Neste clima, entrevistamos o médico psiquiatra Marcos Estevão, de Campo Grande, especialista em Dependência Química, área na qual atua há três décadas. Neste espaço, ele fala sobre o surgimento de drogas sintéticas, as mais perigosas; sobre o uso da maconha e o que há em volta de sua possível descriminalização. Outro assunto é a internação involuntária e a falta de vontade política para que haja políticas públicas eficientes.
 

Esta foi a Semana Nacional Antidrogas. Podemos dizer que a lista de drogas ilícitas só aumenta, com misturas inusitadas chegando ao mercado?

DR. MARCOS ESTEVÃO - Sim, hoje é muito mais fácil por causa dos laboratórios de fundo de quintal. As drogas sintéticas são fáceis de fazer. Você mistura coisas e vai ver no que dá. É muito fácil você pegar partes da cocaína, pedaços da maconha e misturar com outras coisas. As drogas são cada vez mais diversificadas, elas chegam com muito mais facilidade e nomes, nomes e nomes. Existem drogas que, às vezes, nós não conseguimos acompanhar, aprendemos com as pessoas.
 

Qual a mais recente novidade neste universo?
Eu acho que todas as drogas sintéticas que têm aparecido, aquelas produzidas em laboratório, principalmente as chamadas metanfetaminas. O ecstasy, o LSD, já partiram para drogas parecidas e talvez com maior potencial de ação, porque há pessoas que procuram. Então, hoje vemos drogas e mais drogas. Você usa uma droga que provoca o canibalismo, outra que provoca a autodestruição. E elas estão aparecendo, aparecendo. Mas, graças a Deus, muitas delas não aparecem por aqui, estão lá pela Europa, pela Ásia, etc. Porém, mais cedo ou mais tarde sabemos que podem chegar por aqui. As drogas sintéticas estão aí, sendo desenvolvidas dia após dia. O ser humano é isso, ele vive procurando novidades, procura fazer algo de algo e as coisas vão aparecendo.
 

Existe alguma droga que seja segura no que diz respeito à capacidade de viciar e de causar danos à saúde? 
Não, nenhuma. A droga que a gente chama de psicoativa vai trazer o dano cerebral, trará uma doença no cérebro. E o cérebro é o que comanda os comportamentos. Toda droga que vai trazer, com o tempo de uso, danos ao cérebro, vai alterar comportamentos, afetos, cognição, memória, raciocínio, afeição, ela vai dar alterações que chamamos de condutopatia do dependente. Ele terá uma conduta alterada na vida dele por causa da droga. Se sair dela, volta a ser outra pessoa. Ele não tem, muitas vezes, um transtorno de personalidade, mas uma alteração dela, que pode ser temporária ou permanente, de acordo com a quantidade e o tempo de uso da droga.
 

O senhor concorda que a maconha é a porta de entrada para outras drogas? É a favor de sua descriminalização?
Existe um debate entre os contra e os a favor; colocaram a maconha como redução de danos. Redução de danos, na verdade, é tirar outras drogas – até lícitas – do mercado, diminuir a propaganda, diminuir os locais físicos de uso. Isso, sim, é redução de danos. Diminuir o uso do cigarro, o uso do álcool, é extinguir – o que seria muito difícil. E não trazer a maconha, que é uma droga psicoativa que, na verdade, é banalizada porque as pessoas não conhecem os seus danos. Ela tem um potencial diferente das chamadas drogas mais pesadas, como a cocaína. As drogas mais pesadas têm uma abstinência muito grave, faz as pessoas se dirigirem ao crime para conseguirem a droga de uso. A maconha, não. A pessoa perde o poder da motivação; ela perde a motivação de, por exemplo, ir praticar um crime – é pouco provável que isso ocorra. Eles não cometem o crime por causa da desmotivação. Mas isso, até um certo ponto, porque se a falta for muito grande, o usuário pode cometer algum delito, mas na maioria das vezes não, eles vão se mantendo assim, desmotivados. Então, eu sempre digo que a maconha não faz matar, mas faz morrer. Você permite uma eutanásia intelectual, uma eutanásia de produção. Ela é a única droga amotivacional, nenhuma outra droga dá isso. E isso é gravíssimo, a pessoa perde o poder de produzir. Se nós quisermos jovens que não vão produzir, com um futuro não producente, aí, sim, nós teríamos que permitir o uso da maconha. Ela traz danos cerebrais mais lentos que a cocaína - e isso talvez faça com que a gente a banalize. Por exemplo, você não vê o dependente de maconha ali, como um zumbi, como você vê, por exemplo, o usuário de crack. O usuário de maconha não morre em 5 ou 10 anos como o usuário de crack, mas ele morre no decorrer da vida, ele não produz nada, ou seja, vai ser uma mesmice. Eu sempre digo que ele aos 18 anos é office-boy e, aos 40, ele será office-boy. Aos 18 anos, ele depende dos pais e, aos 40, ele dependerá dos pais. Esta síndrome motivacional que a gente vê na regra - é claro que pode ter exceções - com a maconha, eu acho que é a coisa mais preocupante. Nós estamos banalizando isso e deixando pessoas que não vivem esta realidade falarem sobre ela. São pessoas que fazem apologia porque usam, porque acham que não têm problema nenhum, mas são pessoas que estudam a fundo esta droga há muito tempo na vida. Muito antes do crack eu já tratava dependentes de maconha, há mais de 30 anos, e vejo o que ela causa.
 

Um grupo de pesquisadores brasileiros está discutindo a possibilidade de permitir o uso medicinal da maconha. Quais são os benefícios já comprovados da droga? 
Existe um produto dentro da maconha - porque ela é formada de várias substâncias. A substância que nós conhecemos como a mais maléfica é o tetrahidrocanabinol. Mas tem o canabidiol, parte da maconha que tem, sim, uma ação terapêutica – isso não significa que a maconha seja terapêutica, significa que o canabidiol é terapêutico. Mas isso, como tem uma apologia mundial, diz-se que maconha é remédio, quando só tem um produto dela, o canabidiol, que pode servir para isso. Se o isolarmos, ele pode, sim, ser usado terapeuticamente, mas aí vem um outro ponto. Ele serve para dor, serve para vômitos – principalmente para os gestacionais –, serve para glaucoma. Mas para todos estes componentes, e para outros, ele é muito inferior a outros remédios já existentes no mercado. Então, quando ele existir, provavelmente, em pouco tempo, vai ser substituído. É claro que vimos na mídia, recentemente, doenças graves, convulsões. Se for ela a única substância a ajudar, eu sou favorável. O canabidiol, e não a maconha, então, seja liberado para estes casos. Porque existem pessoas que só respondem a isso, mas a maioria vai responder não a isso, mas a drogas muito melhores que existem no mercado. Os próprios laboratórios terão um incentivo inicial para colocar isso no mercado por causa do nome, que veio da maconha, mas você pode ter certeza de que, em 4 ou 5 anos, isso será substituído no mercado por falta de eficácia.
 

O que faz uma pessoa se viciar em drogas?
Eu digo que falamos muito em redução de danos, que é deixar a descriminalização. Eu não vejo o dependente como um criminoso. Mas quando houver a descriminalização da droga, você descriminalizar o uso, estará descriminalizando aquilo que serve para o uso, que é a própria droga. Como é que vai se lidar com isso? Se a pessoa pode usar, o objeto de uso também será liberado e isso é muito complicado, principalmente num País como o nosso, onde a gente coloca a carroça na frente dos bois. Você veja, por exemplo, como foi a desospitalização no Brasil. Fecharam-se leitos psiquiátricos e abriram-se de uma forma totalmente inadequada os CAPs (Centro de Atenção Psicossocial). Estes locais não tinham médicos, não tinham material - e até hoje não têm. Nós não preparamos a casa nova para sair da antiga, no Brasil é sempre assim. Então, como é que nós faríamos, por exemplo, uma descriminalização? As pessoas começarão um consumo de drogas voluntário.
 

E podemos atribuir a baixa autoestima como principal fator para a iniciação nas drogas?
Sim, a baixa autoestima, a necessidade de permaneceer no seu grupo de iguais, mas na verdade ele sempre entra voluntariamente. Depois, começa a usar compulsivamente e, eventualmente, ele está doente.
 

E também tem que sair voluntariamente.
Exatamente. Ele entra voluntariamente e a recuperação, a maior parte, tem que ser por ele. O único problema é o seguinte: ele é o culpado pela entrada? Sim, mas não sozinho, nós não temos um período de prevenção. Hoje, é difícil, porque, por exemplo, a escola diz que isso é um problema da família. Só que o aluno entra na escola desde o berçário e a escola e a família têm que andar juntas. Tem que haver a prevenção por parte da escola desde os primeiros anos escolares, uma prevenção lúdica. Assim como o aluno vai ter o monstrinho da Aids, da própria dengue ou do HPV, ele pode ver a droga como este monstrinho também, ludicamente. Então, os professores têm que ser preparados para isso, e, se isso ocorrer, nós teremos um serviço de prevenção. Porque o adolescente vai lá e experimenta, o adolescente se acha o dono da razão: “Eu posso entrar e saio quando quero”. Mas ele não consegue mais sair e usa compulsivamente, e quando isso acontece já está com esta doença cerebral, e aí ele já é um cliente que precisa ser tratado.
 

Há alguns anos o senhor trabalha à frente de uma clínica de recuperação. O que é mais determinante para que o dependente largue o vício?
Primeiro, a vontade dele. Agora, a falta de vontade não é um fator que exclua isso. Eu sou favorável à internação compulsória, que hoje ficou restrita ao crack. Assim eu sou contra, porque a partir do momento que você está tendo uma perda nas atividades acadêmicas, nas atividades profissionais, na vida social, familiar, teria que se justificar uma internação involuntária. E quando ela é bem feita, se você deixar o paciente por 30 dias e trabalhar com uma equipe bem preparada, incluindo dependentes químicos que já estão em tempo de recuperação, no mínimo 50% deles vão se tornar voluntários. A partir do momento em que ele se torna voluntário e adere ao tratamento, existe um grande potencial de melhora. Infelizmente, a recaída é muito comum. Privilegiados aqueles que conseguem sair o mais rápido possível.


Como o senhor acha que deveria ser a posição do Estado frente ao crescente número de dependentes no País? O senhor faz parte de algum grupo que tenta colaborar na criação de políticas públicas?
Sim. Eu sou do Conselho Estadual Antidrogas e nós nos reunimos praticamente todas as semanas. Temos um presidente extremamente atuante, que é o dr. Sérgio Arfouche, e outros profissionais que se envolvem, se dedicam ao combate e prevenção às drogas pelo tratamento e pela prevenção. Além das reuniões, nós sempre estamos em contato, formamos até um grupo social fechado, a partir do qual trocamos ideias diariamente, discutimos avanços, notícias novas, etc. E digo que, para que tudo mude, falta vontade política, porque fazemos as coisas isoladamente: um ano é o ano do álcool, o outro é o ano do crack. E nós temos que ter não o ano da droga, mas o ano inteiro é da droga, é um grave problema de saúde pública, que está dizimando os jovens ao redor do mundo. Existe uma idelogia, existe uma colocação nacional e internacional, existe um comportamento político-eleitoreiro. Ou seja, não se pensa na população, se pensa na sua própria eleição. Portanto, nós não temos que fazer apologia às drogas, temos que fazer a marcha contra elas, a marcha pelo tratamento, a marcha pela prevenção, pelo preparo dos professores, pela melhora dos hospitais, pelo aumento de leitos, contra esta lei manicomial absurda e descabida. Nós precisamos de leitos para tratar do paciente que está acabando com ele e com todos os que estão a sua volta.  




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